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  • psicomelo42

25 de julho comemoração do Mês da Mulher Negra Latino-Americana, Caribenha e de Tereza de Benguela

Como você se percebeu Negra? Você falou que era Negra ou te gritaram Negra? Na construção da sua identidade racial você se sente escutada? Você se sente invisível nas suas relações afetivas, se sente acolhida? Sente-se com espaço para expressar seus sentimentos, suas afetações? As pessoas com quem se relaciona lhe reconhecem no que tange espaço para você ser? Ou somente percebem como objeto de subalternização ou sexual? Você se sente representada nos movimentos sociais? E como percebe seu laço com o Social? Esta e muitas perguntas a partir do vídeo impactante da poeta Victoria Santa Cruz sobre a descoberta de Ser através do outro/ Outros me convocam uma para uma escuta como “Testemunho, Instrumento” da dor e reverberações do racismo estrutural, fenômeno social com característica de negação no nosso país, que apesar do inconsciente não ser racista, machista e misógino, mas é atravessado pela reprodução destas construções da estrutura social e ressonantes do laço no sujeito (inconsciente).


Quando menciono “Testemunho”, “Instrumento” quero dizer que empresto meus ouvidos, gestos, atenção, para escutar os sofrimentos causados a nós Mulheridades Negras pelo sofrimento psíquico causado pelo racismo estrutural, mas este testemunho conforme aconteceu com o escritor James Baldwin (Documentário- Eu não sou seu Negro não) que empresta seu corpo para documentar a construção do movimento negro norte americano. Ocorreu de maneira ativa, a partir da sua construção de identidade de um homem negro gay e está para além de só documentar. É atuar, é transmitir com fazemos na prática do movimento do analista para além do Setting. Dentro e fora dos settings, seja no individual (singular) ou nos grupos (coletivos), o caminhar da minha clínica baseia-se na escuta majoritariamente de Mulheres Negras não por opção, mas por ser procurada como identificação de pares, para acesso ao que é mais nos negado: o cuidado com a saúde mental. Porque senão como dizia minha avó (Antônia do Prado da Rosa): “Mente doente, corpo padece”. Nestes relatos, reflexos do atravessamento do racismo estrutural, ecoam as seguintes falas: “Eu estou cansada de lutar. Eu não aguento mais… Eu nasci e fui forjada na guerra… Por que eu só tenho que trabalhar e carregar a sociedade? Detesto que me chamem de guerreira e me cobram para ser forte o tempo todo… Não sou reconhecida pelas parcerias amorosas, somente como objeto de apoio ou flerte… Estou mais sobrecarregada nesta pandemia… Não aguento mais. Por que não posso descansar e ser apoiada? Na escola sofri muito, falaram que eu era feia, cabelo duro, nariz de macaco… Não sou escutada dentro da minha família e muito menos fora…” Estas e muitas outras falas são escutas do que sugerimos como a procura de uma construção de identidade, que são marcadas pelo racismo, mas que apesar de sermos “Candaces, Terezas de Benguelas e Marielles (Guerreiras, Rainhas e Militantes). Somos mulheres singulares, compostas de potencialidades, mas também de dores, de mazelas que necessitam de atenção, cuidado, lugar para sermos quem desejamos ser somadas à luta coletiva. Porque nosso dia é todo o dia.




Referências Bibliográficas

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Nota: Autora do texto: Eliane Rosa de Melo CRP 06/147873.


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